2026-01-19 13:32 (JST)
Avançamos agora para o Artigo 2 da Série: O Estado Capturado e o Futuro da Autonomia, onde seguimos a trilha do dinheiro para expor os ‘ralos’ do sistema tributário brasileiro e entender por que o peso dos impostos recai sobre quem produz, enquanto o lucro do topo permanece intocado.
Você trabalha duro, paga suas contas e, no fim do mês, sente que o dinheiro some como água pelo ralo. Essa sensação não é um acaso; é o resultado de um sistema tributário desenhado para sugar a riqueza de baixo para cima. Enquanto você sente o peso dos impostos em cada compra e no seu salário, os maiores lucros do país navegam em um mar de isenções.
A Estrutura Torta: Quem Paga a Conta?
O Brasil é um dos países que mais taxam o consumo e o salário e menos taxam a renda do capital (lucros e grandes fortunas). Isso significa que:
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Imposto sobre Consumo: Praticamente tudo que você compra – do feijão ao combustível, da energia elétrica ao carro – tem um imposto embutido que pode chegar a 40% do valor final. Esse imposto é o mesmo para o Competidor A (rico) e para o Competidor B (pobre) do nosso artigo anterior. É o imposto mais injusto, porque pesa mais no bolso de quem ganha menos, que consome proporcionalmente mais da sua renda.
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Imposto sobre Salário: Uma boa parte do seu salário bruto é retida para impostos e contribuições, antes mesmo de chegar à sua conta.
Quem mais lucra com essa estrutura? As grandes empresas e seus acionistas.
A “Jabuticaba” Brasileira: Dividendos Isentos de Imposto
Aqui está um dos maiores segredos (mal guardados) do nosso ralo fiscal: o Brasil é praticamente o único país relevante do mundo que não cobra imposto sobre lucros e dividendos distribuídos a pessoas físicas.
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Comparativo: Enquanto países como os EUA (o “farol do capitalismo” para muitos) e grande parte da Europa taxam dividendos em alíquotas que podem ir de 15% a 40%, no Brasil, esse valor é zero.
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O Impacto: Estima-se que, se o Brasil aplicasse uma alíquota modesta de 10% (metade da média mundial) sobre esses lucros, o Estado arrecadaria entre R$ 50 bilhões e R$ 60 bilhões por ano.
Pense o que esse dinheiro faria pela Saúde e Educação que discutimos no Artigo 1! Ele equivale a uma parte substancial do orçamento do Bolsa Família ou poderia dobrar os investimentos em infraestrutura escolar.
O Maior Ralo: Os Juros da Dívida Pública
Esse é o maior e mais silencioso dreno do dinheiro do povo. Anualmente, o Brasil gasta entre R$ 500 bilhões e R$ 700 bilhões apenas pagando juros da sua dívida pública.
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Como funciona: O governo pega empréstimos (vendendo títulos da dívida) para financiar suas operações e pagar dívidas antigas. Quem compra esses títulos? Principalmente bancos e grandes investidores.
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A Transferência: O dinheiro que o Estado arrecada do seu consumo e do seu salário vai direto para o bolso desses rentistas na forma de juros. É uma transferência gigantesca de recursos da base da pirâmide para o topo, garantida por um sistema de taxas de juros que beneficia quem já tem capital.
O Que Poderíamos Fazer com Tanto Dinheiro?
Se somarmos a arrecadação potencial da taxação de dividendos com uma gestão mais eficiente da dívida pública, estamos falando de centenas de bilhões de reais que poderiam:
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Construir e equipar milhares de hospitais.
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Erguer e manter escolas de tempo integral.
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Financiar pesquisas científicas e infraestrutura básica.
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Ou até mesmo reduzir os impostos sobre o consumo, aliviando o bolso de todos e estimulando a economia de forma justa.
Conclusão: O Sistema de “Vazamento Controlado”
O ralo fiscal brasileiro não é um erro; é uma escolha. Uma escolha que garante que, enquanto você luta para equilibrar suas contas, o dinheiro escorra para um sistema que beneficia poucos. Sem entender onde o seu dinheiro vai, você continua sendo o motor de uma máquina que opera contra os seus próprios interesses.
No nosso próximo artigo “O Teatro da Eficiência Privada“, vamos desvendar a narrativa da “eficiência privada” e do “empresário herói”. Prepare-se para ver como essa história é contada e quem realmente se beneficia dela.
Fonte:
M1XAU
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Série: O Estado Capturado e o Futuro da Autonomia

