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O Teatro da Eficiência Privada

2026-01-19 13:48 (JST)

Vamos para o Artigo 3 da Série: O Estado Capturado e o Futuro da Autonomia, onde desconstruímos o marketing da “eficiência privada” e mostramos como o capital público muitas vezes financia o lucro particular.

Você já deve ter visto esse filme: um grande empresário inaugura uma obra pequena, bem pintada e funcional, e diz: “Vejam, o privado é muito melhor que o Estado!”. O público, cansado de serviços públicos sucateados, aplaude. Mas o que acontece atrás das cortinas desse teatro é bem diferente da propaganda.

A Estradinha vs. A Malha Viária

O marketing da eficiência privada adora o que chamamos de “seleção de cerejas”. O empresário escolhe os 5 km de estrada que levam à sua loja ou o setor de telefonia que atende os bairros ricos. É fácil ser “eficiente” onde há lucro garantido. Enquanto isso, o Estado fica com a parte difícil: levar energia ao sertão, manter hospitais em áreas isoladas e construir estradas onde não passa ninguém, exceto o cidadão que precisa de dignidade. O privado quer o “filé mignon”; o “osso” sobra para o imposto do povo.

O Capital Público no Bolso Privado

A maior mentira contada é que o grande empresário “corre riscos” com seu próprio dinheiro. No Brasil, o chamado “Capitalismo de Compadrio” funciona assim:

  1. Dinheiro Barato: O empresário “privatiza” uma estatal usando empréstimos de bancos públicos (como o BNDES) com juros baixos.

  2. Subsídios e Isenções: Ele recebe perdões de dívidas e isenções fiscais que o cidadão comum jamais sonharia.

  3. Monopólio Garantido: Muitas vezes, a “privatização” apenas troca um monopólio público (que você pode cobrar via voto) por um monopólio privado (que você é obrigado a pagar via tarifa).

Socializar o Prejuízo, Privatizar o Lucro

Nas Parcerias Público-Privadas (PPPs), existe quase sempre uma cláusula de “equilíbrio econômico-financeiro”. Se a empresa lucrar menos do que esperava, o governo injeta dinheiro público ou autoriza aumentos de tarifa. Ou seja: se der certo, o acionista fica com o lucro (e lembra que ele não paga imposto sobre dividendos?). Se der errado, o prejuízo é seu, através dos impostos. O empresário não é um “herói do risco”; ele é um sócio do Estado que só participa das vitórias.

Por que o Pobre “Cai” nessa Falácia?

O sistema sucateia o público propositalmente para que a privatização pareça a única saída. Quando o hospital público não tem gaze, o cidadão aceita qualquer proposta de gestão privada, sem perceber que o dinheiro que falta no hospital é o mesmo que sobra nas isenções fiscais dadas ao “gestor eficiente”.

Conclusão

Não se deixe enganar pela pintura nova da “estradinha” do ricaço. A gestão privada de serviços essenciais no Brasil é, muitas vezes, apenas uma forma de colocar um pedágio entre você e o seu direito, usando o dinheiro do próprio Estado para financiar o lucro de poucos. A eficiência que não reduz a sua conta nem melhora a sua vida de forma real é apenas marketing de transferência de renda.


No próximo artigo, vamos falar sobre quem realmente carrega o país nas costas: “Artigo 4: O Trabalho como Fonte Real de Riqueza”. Sem o trabalhador, o capital é apenas papel. Vamos entender por que quem produz é quem menos ganha.

 

Fonte:
M1XAU

 

Índice da Série

Série: O Estado Capturado e o Futuro da Autonomia