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Acordo de Plaza

2026-01-01 11:10 (JST)

O Acordo de Plaza: Origem, Mecânica e as Consequências Estruturais para o Japão

 

Introdução

Poucos eventos da história econômica moderna tiveram efeitos tão profundos e duradouros sobre um país quanto o Acordo de Plaza, firmado em 22 de setembro de 1985, em Nova York. O que começou como um ajuste coordenado de câmbio entre grandes potências acabou se tornando um ponto de inflexão estrutural para o Japão — com efeitos que ecoam até hoje na sua política monetária, no endividamento público e no crescimento econômico cronicamente baixo.


1️⃣ O que foi o Acordo de Plaza

O Acordo de Plaza foi um pacto entre as cinco maiores economias da época — Estados Unidos, Japão, Alemanha Ocidental, França e Reino Unido — para intervir de forma coordenada no mercado cambial, com o objetivo principal de desvalorizar o dólar americano.

🎯 Objetivo central

  • Reduzir o enorme déficit comercial dos EUA

  • Corrigir os desequilíbrios globais de conta corrente

  • Conter tensões comerciais crescentes, sobretudo com o Japão

O acordo foi articulado durante o governo de Ronald Reagan, com apoio do então secretário do Tesouro James Baker.


2️⃣ Por que o Japão entrou no acordo

 

No início dos anos 1980, o Japão era visto como uma superpotência exportadora imparável:

  • Superávits comerciais recordes

  • Indústria altamente competitiva (automóveis, eletrônicos, máquinas)

  • Acusações frequentes de “dumping cambial” por parte dos EUA

A pressão americana incluía:

  • Ameaças de tarifas e sanções

  • Discurso político de que o Japão estava “exportando desemprego”

Para evitar um conflito comercial aberto, Tóquio aceitou participar do acordo.


3️⃣ A mecânica do choque cambial

 

O impacto foi rápido e brutal:

  • O iene passou de ¥240/USD para cerca de ¥120/USD em menos de dois anos

  • Uma apreciação de quase 100%

Consequência imediata:

  • Exportações japonesas perderam competitividade

  • Margens industriais despencaram

  • Risco real de recessão profunda


4️⃣ A reação do Japão: a semente da bolha

Para compensar o choque cambial, o Japão adotou uma resposta que, à época, parecia racional:

📉 Política monetária ultraexpansiva

  • O Bank of Japan reduziu agressivamente os juros

  • Crédito barato e abundante

  • Incentivo explícito ao consumo e investimento doméstico

🏦 Política de crédito frouxa

  • Bancos emprestavam com base em colaterais imobiliários inflados

  • Relação risco/retorno ignorada

  • Alavancagem crescente em ativos financeiros


5️⃣ A bolha imobiliária e financeira japonesa

Entre 1987 e 1989, o Japão viveu uma das maiores bolhas da história moderna:

  • O índice Nikkei 225 ultrapassou 39.000 pontos

  • Terrenos em Tóquio chegaram a valer mais que países inteiros

  • A crença era simples: “terra no Japão nunca cai”

📌 Sim, o Acordo de Plaza teve papel direto

Não foi a única causa, mas foi o gatilho estrutural que:

  • Forçou juros artificialmente baixos

  • Empurrou o sistema financeiro para o excesso

  • Criou um ambiente de complacência e euforia


6️⃣ O estouro da bolha e a Década Perdida

 

Em 1990, o Banco do Japão tentou normalizar a política monetária. Foi tarde demais.

Consequências:

  • Colapso dos preços imobiliários

  • Quebra silenciosa do sistema bancário

  • Explosão de créditos podres (non-performing loans)

  • Deflação estrutural

O Japão entrou no período conhecido como:

“A Década Perdida”

(que, na prática, virou três décadas)


7️⃣ Impactos de longo prazo (até hoje)

O legado do Acordo de Plaza ainda molda o Japão atual:

  • 📉 Crescimento estrutural baixo

  • 🧓 Envelhecimento populacional sem compensação produtiva

  • 💴 Política monetária permanentemente excepcional

  • 📊 Dívida pública acima de 250% do PIB

  • 🧠 Trauma institucional com juros altos e aperto monetário


🎯 Conclusão: o Plaza como trauma geoeconômico

O Acordo de Plaza não foi apenas um ajuste cambial.

Foi um evento geopolítico que redesenhou o destino econômico do Japão.

Ele ensinou uma lição dura:

Choques externos forçados, quando compensados com distorções internas, criam bolhas — e bolhas cobram seu preço por décadas.

O Japão sobreviveu, mas nunca mais foi o mesmo.

 

 

Fonte:
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O Crash de 2008, o Subprime e a Genialidade de Michael Burry