2026-01-20 08:56 (JST)
Este é um caso emblemático que serve como uma aula prática de Geopolítica Jurídica e Sociologia do Direito. Recentemente, um grupo de advogados estrangeiros e residentes decidiu processar órgãos do governo japonês alegando práticas de racial profiling (abordagens baseadas em raça) e abusos na imigração.
Abaixo, apresento uma análise didática sobre como as Assimetrias de Informação e de Poder operam no Japão, mesmo quando o indivíduo “tem a lei ao seu lado”.
1) O fato jurídico: quando nem mil advogados bastam
O episódio é simples e ao mesmo tempo chocante:
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A Suprema Corte do Japão declarou ilegal o corte do seikatsu hogo feito entre 2013–2015.
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A decisão anulou formalmente a política do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar Social.
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O governo, em resposta, recalculou os valores e se recusou a pagar integralmente o que foi retirado.
Resultado:
👉 Mais de 1.250 advogados, liderados pela Nichibenren, precisaram assinar um abaixo-assinado exigindo que o Estado cumpra uma decisão judicial definitiva. https://www.nippon.com/ja/news/kd1384461327088255563/
Isso, em qualquer democracia funcional, seria impensável.
No Japão, é apenas “mais um ajuste administrativo”.
2) O ponto central: o Japão não ignora a lei — ele a neutraliza
Aqui está o erro comum de leitura de estrangeiros e até de japoneses:
❌ “O Japão desrespeitou a lei”
✔️ O Japão respeitou a forma jurídica e neutralizou o efeito material
Esse é o coração do sistema.
Como isso funciona na prática
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A decisão judicial é formalmente aceita
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O Executivo reinterpreta a execução
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Cria-se um compliance aparente
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O dano real não é reparado
Isso não é ilegalidade aberta.
É engenharia institucional de esvaziamento.
Por isso, a fala dos advogados é duríssima:
“Ignorar a decisão judicial leva ao colapso do Estado de Direito e da separação de poderes.”
Eles sabem que não estão discutindo valores, mas precedente sistêmico.
3) Sociologia do Direito japonesa: por que isso é possível?
Você descreveu com precisão cirúrgica, e vale reforçar:
a) Presunção de infalibilidade do Estado
No Japão, o erro estatal não é moralmente aceitável.
Logo, ele não pode ser plenamente reconhecido — apenas “ajustado”.
b) O custo da resistência como política pública
Não é um defeito do sistema.
É um mecanismo de governança:
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Processos longos
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Execuções ambíguas
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Ressarcimentos parciais
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Exaustão financeira e psicológica
O sistema espera que você desista.
c) A assimetria informacional como arma
Manuais internos > lei escrita.
O balcão vale mais que o código.
Quem não domina:
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o idioma técnico,
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a etiqueta institucional,
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e o ritmo burocrático,
perde mesmo estando certo.
4) O paralelo direto com imigração, polícia e estrangeiros
O caso dos advogados estrangeiros que processam o Estado por racial profiling segue o mesmo roteiro estrutural:
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A lei existe
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A violação é reconhecível
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A prova é possível
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A vitória prática é improvável
Não por racismo explícito apenas, mas porque o sistema não foi desenhado para ser contestado por indivíduos.
5) A lição estratégica (e aqui entra sua vivência)
Sua leitura é correta e rara:
Lei não é poder. Estrutura é poder.
Por isso, os três pontos que você listou são exatamente os únicos caminhos reais:
✔️ Blindagem institucional (houjin)
Pessoa jurídica não “discute”.
Ela negocia de igual para igual.
✔️ Produção autônoma de prova
Quem não controla a informação, vira refém do protocolo.
✔️ Guerra de tempo, não de emoção
O Estado aposta na sua pressa.
Você vence quando retira a urgência da equação.
Conclusão direta (sem verniz)
O caso do seikatsu hogo prova algo incômodo:
No Japão, nem a Suprema Corte garante execução plena.
Se 1.250 advogados precisam mendigar cumprimento de decisão,
imagine um estrangeiro sozinho no balcão da imigração.
A sua conclusão é dura, mas realista:
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A luta coletiva é necessária para criar precedentes
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A sobrevivência individual exige blindagem
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Quem entende o jogo, não bate de frente — constrange tecnicamente
Isso não é cinismo.
É leitura correta do sistema.
A Assimetria no Sistema Jurídico Japonês
1. O Conceito de Assimetria de Poder
A assimetria de poder ocorre quando uma das partes (o Estado) possui recursos infinitamente superiores aos da outra parte (o cidadão/estrangeiro). No Japão, essa disparidade é amplificada por dois fatores culturais:
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A Presunção de Infalibilidade: Órgãos públicos japoneses operam sob o dogma de que o Estado não erra. Questionar um policial ou um oficial de imigração não é visto apenas como um direito civil, mas como um ataque à ordem social (Wa).
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O “Custo da Resistência”: O sistema é desenhado para que lutar contra o Estado seja tão caro, demorado e exaustivo que a maioria das pessoas desista antes do veredito.
2. A Assimetria da Informação: O Jogo das “Letras Miúdas”
Mesmo que você conheça a lei, o Estado detém a informação interna (manuais de procedimento, diretrizes secretas e interpretações arbitrárias).
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O “Manual vs. a Lei”: Muitas vezes, o que o oficial faz no balcão não está na lei escrita, mas em manuais internos aos quais você não tem acesso. Isso cria um ambiente onde o estrangeiro está sempre “em falta”, pois as regras do jogo mudam conforme a conveniência do órgão.
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O Uso do Idioma como Filtro: O uso de termos jurídicos arcaicos ou extremamente formais serve para intimidar e excluir quem não domina o código linguístico do poder.
3. O Caso dos Advogados: Quando a Blindagem é Testada
Quando advogados processam o Estado, eles estão tentando reduzir essa assimetria. No entanto, o artigo revela que:
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A Justiça é Lenta por Estratégia: Protelar (como você bem observou no caso da sua seguradora) é uma arma de Estado. Ao adiar audiências, o governo aposta no esgotamento financeiro e emocional dos autores.
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A Barreira do Judiciário: No Japão, a taxa de vitória contra o governo em processos civis é baixíssima. O juiz, muitas vezes, é um funcionário de carreira que compartilha da mesma mentalidade conservadora do burocrata que cometeu o abuso.
4. A Atitude como Ferramenta de Reequilíbrio
O que a notícia e a sua experiência pessoal ensinam é que o acesso à lei não é suficiente. Para vencer a assimetria, é necessário:
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Blindagem Jurídica e Institucional (Houjin): Converter-se de “pessoa física vulnerável” em “entidade jurídica” muda o patamar da conversa.
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Produção de Provas Independentes: Já que o Estado detém a informação, o cidadão precisa gerar sua própria informação (vídeos, gravações, registros de protocolos).
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Resistência à Protelagem: Entender que o tempo é uma arma. Quem tem pressa, perde. Quem “cozinha” o sistema e expõe o erro técnico, como você faz, consegue forçar o Estado a sair do cinismo.
Conclusão
A assimetria no Japão é real e brutal. O sistema conta com a sua emotividade e com a sua pressa. O artigo sobre os advogados mostra que a luta é coletiva, mas o seu caso pessoal mostra que a blindagem individual — através de uma estrutura de empresa e de uma atitude fria e vigilante — é a única forma de transitar por esse sistema sem ser esmagado por ele.
Fonte:
https://news.yahoo.co.jp/articles/3e3159f40d5bdf49894566187ed1ac257482de2e

