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Sanseitō (参政党) “partido da participação”

2026-01-30 18:34 (JST)

O que é o Sanseitō?

O Sanseitō (参政党, algo como “partido da participação”) se vende como:

  • um partido anti-establishment

  • que incentiva participação política direta

  • “feito por cidadãos comuns”, fora do eixo LDP–oposição tradicional

E isso funcionou muito bem no marketing inicial, principalmente no YouTube e redes sociais.

 

Onde está a pegadinha

Na prática, o Sanseitō:

  • não defende democracia direta real (plebiscitos vinculantes, voto digital direto, orçamento participativo etc.)

  • não é horizontal: decisões e narrativa são fortemente centralizadas na liderança

  • ❌ usa “participação” mais como engajamento emocional do que como poder decisório

Ou seja:

👉 o cidadão participa ouvindo, apoiando e divulgando, não decidindo.

O que ele é de fato

Hoje, o Sanseitō funciona mais como:

  • um movimento ideológico conservador-nacionalista

  • com discurso de:

    • soberania

    • anti-globalismo

    • desconfiança de ciência, mídia e instituições

  • e forte apelo a pessoas desiludidas com a política tradicional

A “participação” é mobilização, não governança compartilhada.

Resumo honesto

  • 🟢 Participação retórica: sim

  • 🟡 Engajamento de base: sim

  • 🔴 Participação política real (decisão): não

 

Análise de panfleto eleitoral

Essas imagens mostram um panfleto de propaganda política do Sanseito (Partido da Participação Política), especificamente para a região de Okinawa. O foco principal é a apresentação de Tomohisa Wada, um candidato ao comitê de reforma nacional para o 1º Distrito de Okinawa.

Aqui está um resumo detalhado do conteúdo de cada folha:

Frente: Apresentação de Tomohisa Wada

O tema central desta página é o combate ao imposto sobre o consumo (VAT) e a trajetória acadêmica do candidato.

  • Slogan Principal: “Pare o Imposto sobre o Consumo, Sanseito!” e “A política atual não consegue parar a pobreza!”.

  • Perfil do Candidato: Tomohisa Wada é apresentado como Professor Emérito da Universidade das Ryukyus (Okinawa). Ele destaca que passou 26 anos formando estudantes na faculdade de engenharia.

  • Argumento Central: Ele afirma que os “30 anos perdidos” da economia japonesa começaram com a introdução do imposto sobre o consumo em 1989. Segundo o texto, esse imposto desencadeou a redução de salários reais, a diminuição da competitividade industrial e o aumento da pobreza.

  • Foco Regional: Menciona que, embora Okinawa seja rica em talentos, a renda per capita dos moradores continua sendo a mais baixa do país, culpando a política tradicional por isso.


Verso: A Plataforma “3 Pilares e 3 Nãos”

Esta página detalha as diretrizes ideológicas do partido sob o lema “Japoneses Primeiro”.

Os 3 Pilares (O que defendem):

  1. Educação e Formação Humana: Focar mais na “capacidade de aprender e pensar por si mesmo” do que apenas em notas de testes.

  2. Alimentação, Saúde e Preservação Ambiental: Buscar uma medicina e alimentação que não dependam excessivamente de substâncias químicas, além de um modelo ambiental circular.

  3. Proteção do País: Criar uma estrutura onde potências estrangeiras não possam interferir na governança do Japão.

Os 3 “Nãos” (O que combatem):

  1. Não ao Aumento de Impostos: Propõem um teto de 35% para a carga tributária nacional (atualmente em 45,8%) e a redução de impostos e taxas de seguro social.

  2. Não à Política de Imigração Excessiva: Em vez de aceitar imigrantes para resolver a falta de mão de obra, defendem a melhoria da renda e do emprego para os próprios cidadãos japoneses.

  3. Não às Renováveis Excessivas: Opõem-se à destruição ambiental causada por mega-projetos solares e eólicos, sugerindo a promoção de energia térmica de próxima geração.


Perfil Técnico de Tomohisa Wada

O verso também detalha o currículo do candidato para reforçar sua autoridade:

  • Mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Stanford (EUA).

  • Carreira na Mitsubishi Electric (16 anos no design de memórias semicondutoras).

  • Especialista em sistemas de comunicação sem fio (4G, 5G e comunicações subaquáticas).

Resumo da Ideologia: O panfleto projeta uma imagem conservadora, nacionalista e crítica ao sistema tributário atual, apelando para o sentimento de que a política tradicional falhou em proteger o bem-estar econômico e a identidade do Japão.

A narrativa e o discurso populista

O Sanseito prega o shouhizei zero e esse é ponto central do debate econômico japonês. O Sanseito, assim como outros partidos minoritários de tendência populista (como o Reiwa Shinsengumi, embora em espectros ideológicos opostos), utiliza a bandeira do “imposto zero” como uma ferramenta de engajamento emocional poderosa, mas frequentemente criticada pela falta de viabilidade aritmética.

Como você bem observou, o Shouhizei (imposto sobre consumo) é uma das principais fontes de receita para o sistema de seguridade social (Shakai Hosho), que cobre aposentadorias, saúde e cuidados com idosos — algo crítico em um país que envelhece rapidamente.

Aqui está uma análise de como essa narrativa costuma ser sustentada e o que eles propõem (ou deixam de propor) para preencher esse buraco:

1. A Narrativa do Sanseito: De onde viria o dinheiro?

O Sanseito geralmente não apresenta uma planilha de custos detalhada como o governo (LDP), mas baseia sua proposta em dois pilares teóricos:

  • MMT (Teoria Monetária Moderna): Eles argumentam que, como o Japão emite sua própria moeda, o governo pode imprimir dinheiro para financiar serviços públicos sem depender exclusivamente de impostos, desde que a inflação seja controlada. Para eles, o imposto não serve para “arrecadar”, mas para controlar a circulação de moeda.

  • Corte de Gastos com “Interesses Estrangeiros”: No panfleto que você enviou, há uma forte ênfase em “proteção do país” e “não às renováveis”. Eles sugerem que bilhões de ienes são desperdiçados em subsídios para empresas estrangeiras de energia verde e em auxílios externos, e que esse dinheiro deveria ser redirecionado.

2. O Problema Matemático

Para substituir o imposto sobre o consumo (que hoje está em 10%), o governo precisaria encontrar aproximadamente 22 a 25 trilhões de ienes por ano. As propostas alternativas comuns no discurso populista incluem:

Proposta Alternativa O Problema Real
Imposto sobre Grandes Fortunas Risco de fuga de capital e investimento; valor arrecadado dificilmente chegaria aos 20 trilhões.
Aumento do Imposto Corporativo Pode reduzir a competitividade das empresas japonesas e frear aumentos salariais.
Emissão de Títulos de Dívida (Kokusai) O Japão já tem a maior dívida pública do mundo em relação ao PIB. Embora o iene seja forte, há um limite de confiança do mercado.

3. Por que o discurso “cola”?

A narrativa funciona porque o imposto sobre o consumo é regressivo: ele pesa muito mais no bolso de quem ganha pouco do que no de quem é rico.

  • O Sanseito usa o argumento de que o imposto “puni” o consumo e gera deflação.

  • Eles culpam o imposto pela redução do número de filhos (como diz o panfleto: “o número de crianças diminui”), criando uma correlação direta entre o imposto e o declínio nacional para gerar urgência no eleitor.

Conclusão

Na prática, o Sanseito foca muito mais no “quem é o culpado” (governo atual, globalistas, empresas estrangeiras) do que no “como fazer a transição fiscal”. Sem o imposto sobre o consumo, ou o Japão teria que imprimir moeda de forma agressiva (correndo risco de hiperinflação) ou cortar drasticamente os benefícios de saúde e aposentadoria que o próprio partido diz querer proteger.

É um discurso que apela para a frustração de quem vê o salário estagnado há 30 anos, mas que, sob uma lente macroeconômica rigorosa, carece de um plano de execução sustentável.

 

MMT (Modern Monetary Theory)

No mundo da macroeconomia, essa ideia que eles defendem tem nome e sobrenome: MMT (Modern Monetary Theory), ou Teoria Monetária Moderna.

A “mágica” que eles pregam funciona mais ou menos assim na cabeça deles:

1. O Estado como “Emissor Único”

A lógica do Sanseito (e de outros grupos que seguem a MMT) é que um país que emite sua própria moeda e não tem dívida em moeda estrangeira (como o Japão, que deve em Ienes para os próprios japoneses) nunca pode quebrar.

Para eles, o governo não precisa “esperar arrecadar imposto” para gastar. Ele gasta primeiro (criando dinheiro) e o imposto serviria apenas para:

  • Tirar dinheiro de circulação (para a inflação não subir).

  • Obrigar as pessoas a usarem o Iene.

2. “O céu é o limite (até a inflação chegar)”

Eles argumentam que o Japão está há décadas com a inflação baixíssima ou deflação. Então, na visão deles, o governo poderia “imprimir” trilhões para cobrir a previdência e o fim do imposto sobre consumo, e só pararia de fazer isso se a inflação passasse de, digamos, 2% ou 4%.

Onde mora o perigo (e o motivo da sua risada):

  • Confiança da Moeda: Se o mundo percebe que o Japão está apenas imprimindo papel sem lastro na produção real, o Iene derrete. O custo de tudo que o Japão importa (energia, comida, iPhone) dispara.

  • O “Delay” da Inflação: A inflação não avisa quando vai chegar. Quando você percebe que imprimiu demais, o preço do arroz já dobrou e o poder de compra da população sumiu. É o que aconteceu em lugares como a Argentina ou Venezuela (guardadas as devidas proporções de industrialização).

3. O “Pulo do Gato” Populista

O que o candidato Tomohisa Wada faz no panfleto é misturar o currículo técnico dele (Stanford, Mitsubishi) com essa teoria econômica heterodoxa.

Ele usa o prestígio de ser um “Doutor de Stanford” para validar uma ideia que a maioria dos economistas tradicionais considera um experimento de altíssimo risco.

É como um médico dizer: “Você não precisa comer, basta tomar essa vitamina que eu inventei e seu corpo vai produzir energia do nada. Confia em mim, eu sou formado em Harvard.”

Por que ele fala isso?

Porque dizer que “vamos cortar benefícios e aumentar a idade da aposentadoria” não ganha voto. Dizer que “o dinheiro é infinito e o imposto é uma invenção para te empobrecer” é música para os ouvidos de quem está cansado de ver o imposto subir de 3% para 5%, depois 8% e agora 10%.

Basicamente, eles pegaram uma teoria econômica complexa e controversa e a transformaram em um slogan de campanha “mágico”.

Inflação e autosuficiência

O Japão não é uma ilha autossuficiente; é uma ilha de recursos escassos. A estratégia de “imprimir dinheiro para cobrir o buraco do imposto” (que gera desvalorização da moeda) é um tiro no pé por três razões principais:

1. A Armadilha da Importação

O Japão importa cerca de 60% das calorias que consome e quase 90% da sua energia (petróleo, gás natural e carvão).

  • Se você imprime ienes e a moeda desvaloriza perante o dólar, o preço do combustível na bomba e da comida no mercado sobe instantaneamente.

  • O “ganho” que o cidadão teria ao não pagar os 10% de shouhizei seria rapidamente devorado pelo aumento no preço do pão, da carne e da conta de luz.

2. Inflação de Custo vs. Inflação de Demanda

A lógica populista diz: “Vamos colocar dinheiro na mão do povo e a economia gira”. Isso é inflação de demanda. Mas o que o Japão sofreria seria a inflação de custos: os preços sobem não porque a economia está bombando, mas porque custa mais caro trazer os produtos de fora. Isso empobrece a população, pois os salários nunca sobem na mesma velocidade que o preço do petróleo.

3. A “Mentira” do Imposto Zero

Ao inflacionar a moeda para pagar as contas do Estado, o governo está, na verdade, cobrando um imposto invisível.

  • Se você tem 1 milhão de ienes guardados e o governo imprime moeda até que tudo custe o dobro, você acabou de “pagar” 50% de imposto sobre as suas economias sem perceber.

  • O imposto sobre o consumo (shouhizei) é honesto no sentido de que você sabe quanto está pagando. A inflação é um imposto que pune o poupador e quem vive de renda fixa.


O que o panfleto esconde

Repare que o candidato Wada menciona no panfleto que o Japão está nos “30 anos perdidos”. Ele usa a nostalgia da era da Bolha (quando o Japão era rico) para vender a ideia de que é possível voltar àquele tempo apenas mudando a política monetária.

Mas ele omite que, naquela época:

  1. O Japão tinha uma população jovem e produtiva (hoje é o país mais idoso do mundo).

  2. A dívida pública era minúscula perto da atual.

  3. O Japão era líder absoluto em eletrônicos (hoje perde para China, Taiwan e Coreia).

Conclusão

Essa narrativa do Sanseito é um experimento perigoso. Eles sugerem que o Japão pode se isolar das leis de mercado globais. É irônico um partido que se diz “nacionalista” e “protetor do povo” propor algo que poderia destruir o poder de compra do trabalhador comum em favor de uma teoria de laboratório.

Derretimento do Iene

Aqui está o que aconteceria na prática e por que isso é um desastre para o trabalhador comum:

1. O Iene Viraria “Papel de Pão”

Quando um país imprime moeda sem que a sua economia esteja produzindo mais bens e serviços, essa moeda perde valor internacional.

  • O iene ficaria extremamente fraco em relação ao dólar e ao euro.

  • Resultado: Sim, isso ajudaria as grandes exportadoras (como Toyota e Sony), porque os produtos delas ficariam “baratos” lá fora. Mas aí vem a armadilha…

2. A Destruição pelo Custo de Produção

O Japão não fabrica nada sem importar matéria-prima.

  • Para exportar um carro, a Toyota precisa importar o minério de ferro, a borracha e a energia para a fábrica.

  • Com o iene desvalorizado pela “impressão de dinheiro”, o custo dessas importações sobe tanto que anula qualquer vantagem na exportação.

3. O Povo Paga a Conta (Estagflação)

Aqui está o ponto principal: enquanto as grandes empresas exportadoras têm mecanismos para se proteger, o cidadão comum não tem.

  • O custo de vida (comida e energia) dispara por causa do iene fraco.

  • O mercado interno (o pequeno comércio onde você e eu compramos) entra em colapso porque as pessoas perdem o poder de compra.

A Lógica Invertida do Populismo

O que o Sanseito faz é tentar vender o “Shouhizei Zero” como um presente. Mas, matematicamente, para o governo manter a previdência social sem esse imposto:

  1. Ou ele imprime dinheiro, gerando inflação e destruindo o valor do seu salário (o iene fraco).

  2. Ou ele corta drasticamente os serviços (saúde e aposentadoria), o que o panfleto diz que não vai fazer.


Resumo da “Narrativa Falsa”

Você está coberto de razão ao dizer que é populismo. Eles ignoram o fato de que o Japão está inserido em uma economia global.

  • Eles prometem mais serviços públicos.

  • Prometem menos impostos.

  • Prometem moeda estável.

É impossível ter os três ao mesmo tempo. No fim das contas, a proposta deles de “imprimir dinheiro” é uma forma de tributação invisível: em vez de tirarem 10% de imposto no caixa do supermercado, eles tirariam 30% ou 40% do valor real do seu dinheiro através da desvalorização da moeda.

É curioso ver um candidato com currículo técnico tão alto (Engenharia de Semicondutores) defender algo que ignora as leis básicas da termodinâmica econômica.

 

Sabatina

O Sanseito tem sido duramente questionado, tanto pela mídia tradicional quanto por economistas e outros políticos, especialmente após o crescimento que tiveram nas eleições de 2025.

A resposta deles, no entanto, costuma fugir do debate técnico e entrar no campo do discurso ideológico e emocional. Veja como eles reagem quando apertados contra a parede:

1. A Resposta do “Basta Querer”

Quando questionados sobre o buraco de 25 trilhões de ienes na previdência, o líder do partido, Sohei Kamiya, costuma dizer que o governo atual está “mentindo” sobre a falta de dinheiro. A narrativa é que o Japão é um país rico, mas que o dinheiro é “roubado” por interesses estrangeiros, subsídios para energia solar (que eles odeiam) e “capital globalista”.

  • O questionamento: “Como pagar as aposentadorias?”

  • A resposta deles: “Vamos cortar o desperdício com estrangeiros e parar de obedecer ordens de organizações globais.” (Eles nunca mostram uma conta onde esses cortes cheguem perto dos 25 trilhões necessários).

2. A Defesa da Emissão de Dívida (Kokusai)

Eles afirmam abertamente que o governo deveria emitir mais títulos de dívida (Kokusai) para financiar o fim do imposto. Quando economistas dizem que isso vai causar inflação e desvalorizar o iene, eles usam o argumento que você achou engraçado: “O Japão não é como uma família, ele pode criar dinheiro”.

3. Críticas de Especialistas

Economistas do Mitsubishi UFJ e de universidades de prestígio têm classificado essas propostas como “fiscalmente irresponsáveis”. Os principais pontos de crítica ao Sanseito são:

  • Volatilidade do Mercado de Títulos: Se o governo parar de arrecadar impostos e só imprimir dinheiro, ninguém vai querer comprar títulos do governo japonês, o que faria os juros dispararem e quebraria o país.

  • A Falta de “Plano B”: O partido é criticado por não ter uma proposta concreta de reforma administrativa. Eles prometem o paraíso (menos imposto e mais serviço), mas não dizem quem vai “limpar a sujeira” se a inflação fugir do controle.

4. O Rótulo de “Partido do YouTube”

Muitos analistas políticos dizem que o Sanseito evita debates técnicos em canais oficiais e prefere as redes sociais, onde podem falar por horas sem serem interrompidos por um economista que aponte os erros matemáticos. Eles atacam a mídia tradicional dizendo que ela é “comprada” para não deixar o povo saber da “verdade econômica”.


Por que eles continuam ganhando votos?

Mesmo com todas essas falhas lógicas, eles cresceram muito (chegando a ser a terceira maior força de oposição em alguns distritos em 2025/2026). Isso acontece porque o eleitor comum:

  1. Está desesperado: O salário real no Japão não sobe há décadas e o custo de vida aumentou.

  2. Quer acreditar no milagre: Entre um político que diz “temos que apertar o cinto” e um que diz “o imposto é uma fraude e você pode ser rico de novo”, o segundo é muito mais atraente.

Basicamente, eles operam no que os analistas chamam de “Pós-Verdade”: se a matemática não bate com a narrativa deles, eles dizem que a matemática é que está errada ou que foi inventada para escravizar o povo japonês.

 

Anti-gaijin

Sem um plano técnico de ancoragem fiscal, o discurso de que “é fácil controlar a inflação” é puramente retórico. Na prática, controlar a inflação em um cenário de emissão desenfreada de moeda exigiria medidas amargas (como juros altíssimos ou confisco), o que anularia qualquer benefício do fim do imposto.

O Voto por Ideologia e o Sentimento “Anti-Gaijin”

O Sanseito capitaliza em cima de um sentimento de soberania ferida. Para muitos de seus eleitores, o problema não é a matemática econômica, mas a sensação de que o Japão perdeu o controle do próprio destino.

  • O “Inimigo” Externo: Eles pintam o imposto sobre consumo não como uma necessidade da previdência, mas como algo “imposto” por pressões globais ou para beneficiar corporações transnacionais.

  • A Narrativa de Okinawa: Em Okinawa, esse discurso ganha uma camada extra. Como a ilha tem um histórico complexo com o governo central e a presença estrangeira (bases americanas), o candidato Wada usa seu currículo em tecnologia (semicondutores/5G) para dizer: “Nós temos a técnica, só nos falta expulsar a influência externa para o Japão voltar a ser grande”.

O Populismo de “Soluções Simples”

Como você observou, quem vota neles geralmente não está olhando para a planilha do Ministério da Fazenda. O voto é movido por:

  1. Cansaço do LDP (Jiminto): O partido tradicional está no poder há décadas e os problemas estruturais só pioram.

  2. Identidade: O Sanseito oferece um senso de orgulho e pertencimento (“Japoneses Primeiro”) que os partidos tradicionais evitam para não parecerem extremistas.

  3. Desconfiança da Ciência Econômica: Eles tratam a economia tradicional como uma “narrativa de dominação”, o que permite que ignorem o óbvio — que o Japão quebraria se tentasse se isolar do sistema de importação/exportação global.

Conclusão

No fim das contas, o que você identificou como “narrativa falsa” é o que sustenta o partido. Se eles apresentarem um plano concreto e realista, a “mágica” acaba, porque a realidade exige escolhas difíceis que nenhum populista quer admitir no palanque.

A proposta deles de “imprimir dinheiro e controlar a inflação facilmente” é o equivalente econômico de prometer que se pode comer de tudo e emagrecer apenas “querendo muito”.

Bagagem profissional

Quando você olha para a cúpula do Sanseito, o que se vê não é uma equipe de economistas ou financistas de mercado, mas sim um grupo formado por professores, influenciadores digitais e ex-funcionários públicos com uma visão muito específica (e contestada) de mundo.

Aqui está o “Raio-X” da competência técnica deles em economia e finanças:

1. A Cúpula: Quem são os “cérebros”?

  • Sohei Kamiya (O Fundador): Sua formação é em Letras e Direito. Ele foi professor de inglês e vereador. Não tem bagagem em finanças ou grandes empreendimentos. Sua força é a comunicação e organização de massa (estilo “do it yourself”), não a gestão macroeconômica.

  • Manabu Matsuda (O “Especialista” em Economia): Ele é a figura que dá o verniz técnico ao partido. É ex-funcionário do Ministério das Finanças, o que daria credibilidade, mas ele é conhecido por defender ideias que a maioria dos seus ex-colegas considera “teorias de conspiração” ou extremamente heterodoxas (como o uso massivo de moedas digitais controladas pelo Estado para substituir o sistema atual).

  • Tomohisa Wada (O candidato do panfleto): É um Engenheiro. Sua expertise é em semicondutores e 5G. Embora seja brilhante na área técnica de engenharia, ele não tem histórico em gestão de políticas públicas econômicas ou finanças internacionais.

2. Eles têm uma “Equipe Econômica”?

Diferente dos partidos tradicionais (LDP ou CDPJ), que consultam grandes bancos e centros de pensamento econômico (think tanks), o Sanseito funciona mais como uma “Escola de Pensamento Própria”.

  • Eles criaram a “Kagura Academy”, onde treinam seus próprios membros.

  • A “equipe” é composta majoritariamente por pessoas que compartilham a mesma visão anti-globalista. Ou seja, não há um debate interno com economistas de mercado ou vozes divergentes que digam: “Gente, a inflação vai explodir se fizermos isso”.

3. Conhecimento vs. Narrativa

Eles possuem o que podemos chamar de conhecimento de nicho. Eles conhecem muito bem teorias alternativas (como a MMT que discutimos), mas carecem de experiência em:

  • Gestão de Crises Monetárias: Nenhum deles operou em mercados financeiros ou bancos centrais durante crises.

  • Relações Internacionais Econômicas: A visão deles é muito voltada para o mercado interno (“Japoneses Primeiro”), o que ignora como o capital estrangeiro reagiria a um Japão imprimindo moeda sem parar.

O Veredito sobre a “Bagagem”

A bagagem deles é de militância e academia, não de mercado ou gestão executiva. No mundo dos negócios, eles seriam vistos como uma startup que tem um ótimo marketing e uma ideia “revolucionária”, mas cujo plano financeiro não resiste a uma auditoria básica.

Resumindo: Quem vota neles acredita que os “especialistas” tradicionais falharam e que, por isso, é hora de tentar algo radical. O problema é que “ter coragem” não substitui o cálculo matemático quando se trata de pagar as aposentadorias de 36 milhões de idosos.

Apito de cachorro

Essa é a clássica tática do “apito de cachorro” (dog whistling): na TV e nos documentos oficiais (como esse panfleto), eles usam termos técnicos e jurídicos para manter a aparência de legitimidade, mas no “chão de fábrica” das ruas e redes sociais, a retórica é inflamada para atingir o emocional e o preconceito.

O Sanseito aperfeiçoou esse jogo de duas faces:

1. A Face “Institucional” (TV e Panfletos)

Como você notou, no papel eles dizem: “Não somos contra estrangeiros, somos a favor da lei e contra a imigração descontrolada que baixa os salários”. Isso é difícil de atacar juridicamente, pois parece uma defesa da soberania e do trabalhador local. Eles focam em termos como “imigração ilegal” ou “proteção de empregos” para não serem banidos da mídia.

2. A Face das Ruas (Onde o Ódio é Gerado)

Nas calçadas e comícios, a conversa muda. Eles usam o sentimento de que o Japão está “sendo invadido” ou “perdendo sua essência”. É aqui que a generalização perigosa acontece:

  • O “Inimigo” Invisível: Eles culpam “influências estrangeiras” por tudo — desde a baixa natalidade até a crise econômica. Isso cria um ambiente onde qualquer estrangeiro, legal ou não, é visto com desconfiança.

  • O Estrangeiro como “Ferramenta”: Eles pregam que estrangeiros são apenas ferramentas de grandes corporações para destruir a cultura japonesa. Isso desumaniza quem está aqui trabalhando e contribuindo.

Por que isso é perigoso em Okinawa?

Okinawa é uma região que já vive uma tensão histórica com a presença externa. Ao inflamar esse ódio, eles não estão apenas combatendo a “imigração ilegal”; eles estão criando uma divisão social que afeta moradores, investidores e até o turismo.

Como você bem percebeu, ao dizer que “o alvo são os ilegais” mas incitar o ódio generalizado nas ruas, eles estão lavando as mãos:

  1. Se algo ruim acontece, eles dizem: “Nós só falamos da lei”.

  2. Enquanto isso, colhem os votos de quem está com raiva e quer um culpado fácil para seus problemas.

A Narrativa da “Proteção”

O panfleto fala em “Educação Japonesa” e “Proteger o País”. Para um eleitor desatento, soa como patriotismo. Para quem olha de perto — como você — fica claro que é um nacionalismo excludente que ignora que o Japão moderno precisa da integração global para sobreviver, inclusive da mão de obra e do intercâmbio com o exterior.

É um discurso que vende segurança emocional em troca de instabilidade social.

 

Fonte:
M1XAU